A participação de especialistas e representantes da sociedade civil na 30 Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), realizada no Brasil, revelou um contraste marcante em relação ao modelo fechado da 11 Conferência das Partes (COP11) da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT). A convidada Jeannie Cameron, especializada em redução de danos causados pelo tabaco, comércio anti-ilícito e segurança da cadeia de suprimentos e ex-consultora da CQCT, relatou a experiência de participar da conferência climática e destacou a diferença de tratamento entre os dois espaços da ONU.
Convidada para discutir os impactos das mudanças climáticas em pequenas ilhas, ela explicou que o problema vai além da elevação do nível do mar. “As pequenas ilhas sofrem com o aumento do nível das águas, mas também com o custo da energia. Onde eu vivo, temos um dos preços de eletricidade mais altos do mundo por quilowatt-hora”, afirmou. Para ela, a transição energética é uma oportunidade concreta de justiça social. “A mudança do diesel para energias renováveis não é apenas ambiental, é econômica. Reduz o custo de vida das pessoas.”
Jeannie destacou que uma das diferenças mais marcantes entre a COP11 e a COP30 está na abertura ao diálogo. “Na COP11, a indústria, os consumidores e até a imprensa independente são proibidos de entrar. Já na COP30, todos são convidados, inclusive para falar em painéis”, disse. Segundo ela, a inclusão não é um detalhe, mas parte essencial de qualquer política que pretenda alcançar resultados reais. “É um cenário completamente diferente entre a Convenção do Clima e a Convenção do Tabaco.”
A especialista, que já atuou como funcionária do governo australiano e participou das primeiras negociações da Convenção do Clima nos anos 1990, afirmou que a discrepância entre os dois modelos é difícil de justificar. “A sociedade civil, os consumidores, as ONGs, a indústria, todos deveriam ser bem-vindos em ambos os tratados, porque são tratados multilaterais. Por que excluir em um e não no outro?”, questionou.
DIFERENÇAS
Jeannie fez uma comparação direta entre as duas agendas. “No clima, estamos saindo da energia mais poluente para formas mais limpas. No tabaco, deveríamos sair do cigarro para alternativas menos nocivas. É o mesmo conceito, mas não é a mesma prática.” Ela critica a postura rígida da CQCT. “A secretaria da CQCT parece ser ideologicamente orientada e nem sequer considera a redução de danos. Já a secretaria da Convenção do Clima busca resultados, sem ideologia.”
Questionada sobre a postura brasileira, que sediou uma COP30 aberta, enquanto brasileiros e jornalistas foram barrados na COP11, ela foi direta. “O Brasil precisa olhar atentamente para esse comportamento. Promove uma COP30 extremamente aberta, mas participa de outra COP onde defende posições retrógradas, sem ciência, sem evidências e sem permitir a participação de agricultores, indústria ou outros atores.” Jeannie reforçou a incoerência entre o protagonismo climático do país e sua postura no tratado do tabaco. “A Amazônia é mencionada constantemente na COP30. Mas na convenção do tabaco, o Brasil adota uma posição atrasada e não apoia direitos humanos ligados à saúde pública. Por quê?”
A fala da especialista ecoa um questionamento crescente dentro de círculos diplomáticos e acadêmicos: como duas convenções das Nações Unidas podem operar sob princípios tão distintos de abertura, transparência e participação? Para Jeannie, a resposta está menos na ONU e mais nas escolhas políticas internas de cada secretaria e de cada Estado participante. “É uma diferença marcante. E alguém precisa perguntar por que isso acontece.”




