
Celebrado em 15 de outubro, o Dia Internacional das Mulheres Rurais foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1995 para reconhecer a contribuição essencial das mulheres na produção de alimentos, na segurança alimentar, na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável das comunidades rurais.
Em todo o mundo, as mulheres representam quase metade da força de trabalho agrícola. No entanto, ainda enfrentam desigualdades marcantes no acesso à terra, crédito, tecnologia e políticas públicas. No Brasil e, especialmente, no Rio Grande do Sul, o cenário vem se transformando de forma gradual, com avanços que demonstram o fortalecimento do papel feminino nas propriedades e na economia do campo.
Segundo o Censo Agropecuário de 2017, apenas 12,2% das propriedades da agricultura familiar gaúcha são chefiadas por mulheres. Apesar de parecer um número modesto, ele vem crescendo de maneira consistente. Um levantamento mais recente da Emater/RS-Ascar, realizado em 2022, aponta que em 37% das propriedades com Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), a responsável legal é uma mulher, um avanço que revela não apenas a ampliação da representatividade, mas também a consolidação da mulher como gestora e empreendedora rural.
Essas transformações, no entanto, não apagam as desigualdades de gênero ainda presentes no dia a dia das famílias rurais. A pesquisa da Emater mostra que a rotina doméstica continua sendo, em grande parte, responsabilidade das mulheres.
Elas são as principais responsáveis por preparar o café da manhã (82%), o almoço (90%) e o jantar (85%), além de cuidar da louça (87%) e da limpeza da casa (89%). O contraste aparece quando se observa o envolvimento masculino nessas tarefas apenas, 4% dos homens afirmam realizar a limpeza regularmente, enquanto 8% dos filhos e 22% das filhas ajudam de forma constante.
Por outro lado, nas atividades externas e produtivas, o cenário começa a se equilibrar. A tomada de decisões sobre assuntos domésticos é majoritariamente feminina (97%), mas o envolvimento das mulheres em temas ligados à produção já alcança 80%, especialmente quando se trata de investimentos nas atividades produtivas e diversificação das fontes de renda.
PARTICIPAÇÃO SOCIAL
A presença das mulheres também cresce nos espaços de representação e formação. O levantamento da Emater aponta que 91% delas participam de atividades promovidas pela instituição, índice superior ao dos homens (68%).
Um exemplo desse protagonismo está em Venâncio Aires, na Cooperativa de Produtores de Venâncio Aires (Cooprova), presidida por Mônica Moraes, que acompanha de perto o crescimento do empreendedorismo rural liderado por mulheres. Para ela, o avanço é perceptível e reflete tanto o desejo de independência financeira quanto o reconhecimento das mulheres como força de inovação no campo.
“Muitas vezes, é a mulher quem puxa um novo empreendimento dentro da propriedade. O homem continua ligado à cultura principal, como o tabaco, mas a diversificação é quase sempre liderada por elas”, afirma Mônica.
A dirigente explica que há uma diferença entre o que aparece nos números oficiais e o que realmente acontece nas comunidades rurais. Muitas produções ainda não estão legalizadas, o que faz com que parte do trabalho das mulheres não apareça nas estatísticas.
DIVERSIFICAÇÃO
Na Cooprova, Mônica observa que a busca por diversificação produtiva é crescente, e quase sempre feminina. As iniciativas incluem desde o cultivo de morangos e hortaliças até a produção de panificados, bolachas e doces caseiros, muitas vezes com potencial para se tornarem agroindústrias.
“Elas chegam cheias de ideias. Querem se legalizar, abrir uma agroindústria, agregar valor ao que produzem. Quando explicamos todo o processo, são elas que saem mais entusiasmadas. Os homens, às vezes, desistem no meio da conversa”, relata.
TENDÊNCIA
Na avaliação de Mônica, a tendência é de aumento da presença feminina no campo nos próximos anos. “A mulher é persistente. Mesmo quando o casamento termina ou quando as condições são difíceis, ela continua tocando a propriedade. Muitas delas sustentam a família com o que produzem. E isso deve crescer ainda mais”, avalia.
Para ela, as políticas públicas e o acesso facilitado ao crédito também têm colaborado com essa mudança. “Hoje, em algumas instituições financeiras e cooperativas, a mulher tem até mais facilidade de conseguir crédito do que o homem. O que ainda falta é a burocracia acompanhar, às vezes, a DAP ou o registro da propriedade está no nome do marido, e isso impede a mulher de aparecer oficialmente como responsável pelo empreendimento”, explica.




